com delongas

"Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras." (C. Lispector)

Monday, 3 August 2009

carta pra mim *

Belo Horizonte, 03 de agosto de 1998.

Ana Paula Querida,

Agora dói, e eu sei bem que a dor deixa a vista turva. Agora não há um canto na casa que lhe seja familiar, não há uma esquina dessa cidade que te pertença, não há uma peça no seu guarda-roupa que de fato te sirva. Você pressente que o que você é pode ser essa chaminha perdida em algum canto da sua cabeça ou talvez no peito, mas essa moça do espelho lhe é tão estranha que é melhor evitar. E eu então posso lhe dizer uma das mensagens que essa carta que eu escrevo vem lhe soprar no ouvido de dentro: todo agora passa. Esse hoje que dói num piscar de olhos vira ontem, e logo-logo é o brilho efêmero da felicidade que você vai tentar capturar nos seus olhos, com medo de que ele também passe. E ele também passa. Tudo passa. Até as marcas de espinha vão passar. Essa paixão que hoje te consome as tardes e a auto-estima, dessa você nem vai se lembrar. Vai incluir na gaveta das histórias inventadas. Paixões inventadas dóem de verdade, mas você vai descobrir os cheiros, os sabores e as texturas das paixões inevitáveis. E reais. Daí você vai aprender a guardar as paixões inventadas pras letras de música, pros posts do blog ou, no máximo, pras curtas tardes ociosas. Tudo o que você aprende agora lhe vai ser útil vida afora, e você vai viver um longo período usufruindo de habilidades conquistadas despretenciosamente, nessas madrugadas que você passa acordada sonhando. Sonhe e aprenda. Tudo que você hoje deseja forte enquanto imagina os detalhes vai lhe surgir na palma da mão quando você menos esperar, e você vai sorrir sozinha, sem ter com quem comentar, desconfiada de que são os sonhos que moldam o mundo. E eu acho mesmo que são.

Não se preocupe tanto com suas notas. Nada do que você realmente quer vai depender das suas notas. Seus conhecimentos sobre as brióftas, as próclises, mesóclises e as reações ácido-base só lhe servirão pra fazer piadinhas com seu irmão e te dar um certo arzinho nerd que você nunca vai perder por completo. Quanto mais cedo você parar de tentar agradar os outros e começar a fazer o que tem vontade, mais cedo vai se sentir livre de fato. Não tenha medo de se dedicar ao que lhe salta aos olhos, ainda que não caia na prova. Aliás, não tenha medo. Mas isso é um outro assunto. Você só está de fato absorvendo o que de certa forma lhe dá tesão. As leis da termodinâmica, os fundamentos do capitalismo, o poder das sentenças intransitivas, a evolução das espécies e – principalmente, principalmente – os contos, os poemas e as letras de música. Se dedique ainda mais ao que te vicia. Memorize mais músicas, mais palavras novas em inglês e em qualquer outra língua que lhe soar familiar. O inglês vai ser a chave que vai te abrir as portas mais cruciais da sua história, vai ser seu currículo e sua passagem pra amores e oportunidades de trabalho essenciais. Eu repito: todas as noites varadas na internet dial-up, todas as tardes passadas com o disk-men tocando pela enésima vez o “jagged little pill”, todas as longas conversas na sala de bate-papo da mtv.com com seu amigo ucraniano lhe renderão frutos. Espere. Saiba esperar, mas não fique ansiosa se não conseguir. Esperar vai se tornar algo tão natural que vai mudar de nome, quando o tempo de cada coisa se tornar instintivo.

Desista de ter cabelo liso, você não fica bem de chapinha. E um conselho de amiga: não experimente cortes curtos. Uma pequena parte do que você é e dos gestos que lhe são mais peculiares depende dos cabelos compridos, e o segredo da beleza – ahá! - parece estar em descobrir o que é mais único em cada pessoa. Você é grande, é alta, nunca vai ser delicadinha, tímida e falar baixo. Quanto mais cedo assumir o que você é, mais rápido vai conseguir se carregar por aí dona de si e inaugurar uma nova fase. Jogue coisas fora ou dê de presente, constantemente. É mais fácil compreender que tudo passa quando se possui menos. Entenda que, de fato, ninguém possui nada. Abrace a transitoriedade das coisas. Seja transitória você também. Mas isso talvez seja mesmo pra mais tarde. Comece por desconfiar das suas certezas todas. Toda certeza é inevitavelmente equivocada e você tem muitas delas. São elas seu maior entrave. A leveza está tão associada à incerteza quanto a disciplina à liberdade, mas essas associações não são óbvias. Não tenha dúvidas entre fazer medicina ou jornalismo, por favor. Nada do que é agora é fixo. Você ainda vai gostar de sol, vai freqüentar academia, vai escutar eletrônico, eticétera, eticétera e tal. Observe. Fale menos, pelo amor de deus, e observe. Você tem mais a aprender que a ensinar, sempre. Se as palavras insistirem em te vazar, prefira escrever. A observação lhe abastace de conteúdo, mas a escrita te organiza. Não passe muito tempo sem escrever, nem cantar e eu lhe garanto que nem o silêncio nem a solidão nunca vão lhe perturbar.

Não perca tempo, ele é o primeiro que passa, ele é sua moeda constante apesar das fronteiras, ele é o eixo do mundo das coisas e ele não perdoa. Passe mais tempo com seus irmãos. Você vai se agarrar nas suas lembranças das tardes com seus imãos nos minutos mais solitários da sua vida. Mais que isso, o amor que você hoje exercita pelos seus irmãos vai se tornar a base da sua forma de amar todos os personagens mais queridos da sua história. Você vai ser um pouco irmã mais velha de todos os seus amigos, e cuidar deles vai te alimentar da fome de estar pra sempre com seus irmãos. Não despreze os lugares anônimos que foram cenário da sua infância, eles no futuro vão compor as sete maravilhas do seu mundo particular e até a Times Square vai parecer menos impressionante que o quintal dos seus avós. Dedique tempo às pessoas, mas não deixe de passar tempo consigo mesma, sempre. Quanto mais observar-se a si própria, mais terá domínio da máquina que é seu corpo, da câmera que é seu olhar, do veículo que são seus pés, do instrumento que é sua voz. Ame sem querer ter pra si. Tudo o que a gente ama – ou odeia – também passa. Abrace a saudade como o tempêro dos dias e desapegue-se. Aceite o que tem à volta, transforme o que está distante em arte e deixe ir. Vá você também. Não perca tempo chorando por quem não te tem o amor que você espera. Você está mais perto do que imagina de descobrir que o seu maior desafio não vai ser o querer do outro, mas o seu próprio. Muitos vão se apaixonar por você, você várias vezes vai se deparar com olhares fascinados, e nem vai achar isso grande coisa. Não dedique sofrimento aos amores que não se efetivaram. Você vai precisar dessa energia pros amores que tomaram corpo de fato, os que valem as lágrimas. Não desista de se apaixonar. O fim é necessário pra toda história que se preze, e faz parte da natureza humana se apaixonar constantemente. Você sempre vai se apaixonar. Vai sem medo, mergulha, deixa bater asas as borboletas da barriga. É necessário. Quando estiver muito ruim, console-se no fato que dias infinitamente melhores virão. Ish, muito bons mesmo, vão ser necessários poemas suados pra expressar o quanto. E nos dias inacreditavelmente perfeitos, saiba que cedo ou tarde você vai estar frente a uma escolha difícil, de novo, e ela vai sempre parecer a escolha mais difícil que você já tomou. E nesse momento você vai se lembrar de que viver é algo que se faz essencialmente só. A única mão que vai estar SEMPRE lá estendida pra você é a sua mesmo. Segura nela e segue que vai dar tudo certo. Eu prometo.

Ana Manga, 03 de agosto de 2009.